“Histórias do Povo Cigano” é um projeto fotográfico e audiovisual que utiliza a imagem como meio de expressão, valorização e diálogo intercultural. Através da fotografia e do vídeo, procura-se dar voz às comunidades ciganas, promovendo uma representação construída a partir do interior da própria comunidade e combatendo estereótipos negativos ainda persistentes na sociedade maioritária.


Este projeto visou, simultaneamente, preservar e divulgar os saberes, tradições e modos de vida ciganos, reconhecendo o papel de muitas das suas figuras como exemplos de resistência, superação e dignidade — mesmo em contextos adversos e com poucos recursos. Ao partilhar estas histórias, pretende-se gerar um impacto positivo tanto na autoimagem das comunidades ciganas, como na perceção da sociedade em geral, promovendo respeito, empatia e reconhecimento mútuo.

Trata-se de um projeto de co-produção comunitária, em que os habitantes participam desde o primeiro momento até à seleção final das imagens. Esta abordagem participativa concretizou-se através de encontros comunitários, dinamizados com o apoio da Costume Colossal, entidade parceira no terreno. Foi dessa relação de proximidade e confiança que emergiram as narrativas visuais, sendo que foram os próprios membros da comunidade os responsáveis pela escolha final das imagens e histórias a apresentar.

Para aprofundar a dimensão identitária do projeto, foram envolvidos jovens da comunidade cigana, selecionados pela própria comunidade, que revisitaram lugares significativos da sua vivência, refletindo sobre a sua realidade e sobre o seu papel no tecido social. Esses jovens trabalharamo em colaboração com artistas da comunidade maioritária, convidados através de uma chamada aberta (Open Call), sob orientação da equipa do Movimento de Expressão Fotográfica (MEF).

“Histórias do Povo Cigano” pretende ser um espaço de participação ativa, criação colaborativa e reflexão crítica, utilizando a fotografia e o vídeo como ferramentas de mediação cultural e de capacitação, tanto a nível técnico como no domínio do autoconhecimento e da valorização identitária. O projeto contribui para o fortalecimento de competências e para a promoção de um diálogo mais justo e inclusivo entre comunidades.


Testemunhos Visuais – histórias em fotografia

Partilhamos as fotografias, criadas ao longo do projeto, que revelam os olhares e vivências da comunidade cigana. Cada imagem é um testemunho visual e cultural, captado por quem quis partilhar o seu modo de ver o mundo, a família, o quotidiano e a tradição. Estas fotografias são mais do que registos, são expressões de identidade, orgulho e pertença, que convidam a olhar com atenção e respeito para a diversidade que nos enriquece.


Testemunhos Visuais – histórias em vídeo


Testemunhos Visuais – Revista



Momentos das sessões de trabalho


Ensaio fotográfico de Carla Freitas


Histórias do Povo Cigano

Quando uma pessoa de etnia cigana, com o seu olhar liquefeito nos olha nos olhos e conta a sua história, dá-se uma ligação à Terra. Um compasso de espanto emerge no tempo que nos concedeu. No processo de sintonização, há rendição de parte a parte. Antecipa-se peso e beleza. Instala-se uma vontade crescente de saber mais. A informação é destapada com reservas e ajusta-se ao grau de confiança e receptividade perscrutados. Na comunidade cigana há sabedoria ancestral que persiste. Um legado transmitido por voz e pelo sangue. Em Portugal, a palavra cigano ainda ergue fronteiras. Gera um instinto de defesa que emerge no imediato, uma desconfiança mútua. Nós e Eles. Eles e Nós. Ocorre por hábito, pela marginalização secular, pela incompreensão ou pelo puro desconhecimento. Os retratos do projeto Histórias do Povo Cigano do Movimento de Expressão Fotográfica não são apenas imagens. No avesso, estão testemunhos repletos de humanidade e resistência que se curvam para dentro. Num fio de arame invisível, a comunidade cigana procura equilibrar o perpetuar da sua Lei e tradição com a subsistência adaptada às exigências do tempo atual, as ferramentas emergentes, as obrigações e dificuldades de integração. As fronteiras suscitam interesse pelo tempo e espaço de um território que se desenha sobre si. Quando a aproximação é feita por bem, é revelado o que consideram de mais sagrado. No processo, desce-se à raiz quadrada dos significados e entrelaçam-se os fios das semelhanças. Na alteridade, é inevitável o questionamento, a procura de entendimento, o reconsiderar de novas estruturas. Que este cruzamento de olhares tenha a força para derrubar estereótipos que invadem de forma abrupta o julgamento, sem consultar a razão. A comunidade cigana merece profundidade na escuta e frescura no olhar. Mais densidade e cerimónia na facilidade como se interpreta o outro.

Cláudia Sofia Fernandes

[texto de apresentação do projecto na exposição fotográfica]


Entidade promotora: Movimento de Expressão Fotográfica

Entidade parceira: Costume Colossal

Apoio: República Portuguesa – Cultura / Direção-Geral das Artes

Localização geográfica de dinamização do projecto: Área Metropolitana de Lisboa

Direção artística: Luís Rocha

Produção: Tânia Araújo

Mediadora cultural: Maria Vicência Cabeças

Participantes da comunidade cigana: Alim Fernandes, Arlete Fragoso, Clara Caramelo, Emanuel Cabeças, Fábio Cabeças, Fábio Moira, Fernando Carmo, Irene Carmo, Irene Maia, Joaquim Cabeças, João Fernandes Domingos, Julieta Botas Vicente, Sérgio Vicente, Leonor Cabeças, Leonor Vicente, Maria Cabeças, Sandro Vicente, Sérgio Vicente, Sayara Silva, Susana Silveira.