“Diários de Um Quotidiano” é um projeto fotográfico e audiovisual de base comunitária, dinamizado pelo Movimento de Expressão Fotográfica (MEF) e foi promovido pelos Leigos para o Desenvolvimento, que decorreu nas comunidades da Caparica e do Pragal. O projeto propôs-se trabalhar a imagem como forma de expressão coletiva, aproximando os participantes da linguagem visual enquanto ferramenta de comunicação, representação e construção de cidadania.

Num contexto marcado por desigualdades sociais e por uma relativa invisibilidade mediática, “Diários de Um Quotidiano” parte do quotidiano vivido nas comunidades para, através da fotografia e do vídeo, registar, valorizar e dar a conhecer as realidades locais sob o olhar dos próprios habitantes. É um exercício de autorrepresentação que procura contrariar narrativas externas e estigmatizantes, devolvendo às comunidades o poder de contar as suas próprias histórias.

A metodologia do projeto assenta numa lógica participativa e colaborativa, baseada em encontros, oficinas e momentos de escuta ativa, onde os moradores são convidados a observar, registar e refletir sobre o seu próprio território e sobre os modos de vida que o compõem. Ao longo do processo, vão sendo criadas imagens e pequenos vídeos que traduzem as suas rotinas, afetos, dificuldades e conquistas. Trata-se, por isso, de um projeto de comunicação comunitária, que contribui para o reforço do sentimento de pertença e para a criação de espaços de expressão partilhada.

O conceito de “diário” assume aqui um papel simbólico e operativo: trata-se de registar o tempo presente da comunidade, com os seus gestos repetidos, os seus lugares de referência, os seus protagonistas quotidianos e de o transformar em narrativa visual. O foco não está apenas no registo estético, mas na capacidade de criar discurso visual com base na experiência vivida, abrindo caminhos para o pensamento crítico e para o reconhecimento mútuo.

A exibição pública das imagens, impressas e colocadas na via pública, devolve o trabalho à comunidade e reforça a sua centralidade. Ao ocupar o espaço urbano com imagens dos próprios moradores, o projeto afirma a presença simbólica e social da comunidade e convida ao diálogo com quem a rodeia. Em paralelo, os vídeos produzidos – que compõem pequenas histórias locais – complementam o trabalho visual e expandem a dimensão narrativa do projeto.

“Diários de Um Quotidiano” é, acima de tudo, um processo de escuta, partilha e co-autoria, onde se reconhece que o gesto de registar em imagem pode ser um gesto político e relacional: um modo de habitar o território e de narrar a vida a partir de dentro, com dignidade e imaginação.


“Diários” é um conceito de intervenção artística e comunitária onde a fotografia e o video assumem o papel de diário visual coletivo. Através da imagem, as comunidades são convidadas a expressar o seu quotidiano, memórias e saberes, promovendo a valorização cultural e a construção de uma cidadania comunicativa. Estes projetos propõem-se recolher, ver e conversar com e sobre a comunidade, num processo de criação partilhada que reforça a identidade local e torna visível aquilo que é vivido no dia a dia.



Foi criada uma revista online com as imagens deste projecto https://www.mef.pt/revista-diarios-de-um-quotidiano/


Histórias

Durante o projecto foram realizados pela comunidade 19 documentários sobre as histórias de vida escolhidas.

Estes documentários estão publicados na plataforma youtube https://www.youtube.com/@diariosdeumquotidiano7439/videos


Maria de Roque

Maria Furtado Nuno, conhecida por Maria de Roque, é cabo-verdiana. Aprendeu a confecção de pastéis e de doces com a sua tia, por quem foi criada. A tradição de confecção dos pastéis vem de cabo-verde, onde a sua tia vendia o que produzia na taberna. Está em Portugal há 34 anos e há 7 anos que vive no território. Vende na rua os doces, pastéis de milho, pastéis de bacalhau e de carne, pastéis de massa tenra, torresmos, cuscuz, bolo, ou seja, alimentos tradicionais da sua terra. O seu sonho é poder ter um espaço de negócio próprio para poder vender os seus produtos.

José Gomes

José Gomes Monteiro, mais conhecido por Zé Rasta, 43 anos, pintor da construção civil. Considera a música uma forma de libertar os seus males, de transmitir uma mensagem positiva às pessoas e de mostrar que num bairro social há músicos com talento. Toca guitarra e percussão. Prefere a música Reggae, apesar der se ter iniciado nas músicas PALOP. Dedica-se à música há 23 anos, iniciando-se nesta arte com a sua passagem pelo Estabelecimento Prisional do Linhó, onde aprendeu a tocar e a cantar com os seus colegas. O seu sonho é poder dar aos filhos condições para que eles não passem as dificuldades com que se tem deparado ao longo da sua vida. Considera o apoio da família como o mais importante na sua vida.

Sandro Galvão

Sandro Galvão, 35 anos, pescador de profissão há 19 anos. Pesca no Tejo à linha e à cana. Aos 17 anos inicia-se nas lides da pesca ajudando no barco da mãe, actualmente trabalha em parceria com o pai. Motiva-o a evolução e a progressão na sua profissão. Há dois anos que já é mestre de embarcação. Corvina, Robalo, Dourada e Safio são algumas das espécies de peixe que apanha no estuário do rio. Utiliza um barco de fibra de 7 metros de boca aberta. O sonho é criar os seus filhos e dar-lhes as condições para que eles possam dar aos seus filhos o que ele conseguiu dar-lhes. Sente-se bem com a sua vida.

Exibição pública das imagens, impressas e colocadas na via pública.

A comunidade local da Caparica-Pragal, os Leigos para o Desenvolvimento e o MEF – Movimento de Expressão Fotográfica recolheram diversas histórias de vidas inspiradoras e que se tornaram referências locais do Monte da Caparica, no âmbito do projeto “Diários de um Quotidiano”, montando assim um percurso interpretativo que dá a conhecer a imensa riqueza cultural e social envolvente.

O percurso interpretativo faz viajar os visitantes pelo Monte da Caparica, Almada, pelo olhar de quem aqui reside, através de histórias de vida inspiradoras.