DIVERSIDADE – IDENTIDADE – PERTENÇA
OLHEM-SE – VEJAM-SE – DÊEM-SE A VER
O MEF-Movimento de Expressão Fotográfica, enquanto entidade promotora, em parceria com a associação cívica Costume Colossal, desenvolveram e deram forma, com apoio da Direcção Geral das Artes, a estas “Histórias do Povo Cigano”.
A direcção artística do projecto coube ao Luís Rocha, com a Tânia Araújo a gerir a respectiva produção e para tal contaram com as colaborações de Carla Freitas e Cláudia Sofia Fernandes.
Maria Vicência Cabeças foi a mediadora cultural.
Estas histórias visuais, publicadas no sítio online do colectivo, foram paginadas por Andreia Peixoto.
Quem em Outubro de 2025, se deslocou aos Jardins do Bombarda, teve oportunidade de impactar com a energia que estas fotografias nos transmitem, as quais estiveram inseridas numa exposição pública, uma das muitas, que fizeram parte da programação do Imago Lisboa Photo Festival-2025, cujo lema para todo o evento, nas sensatas palavras ditas e escritas por Rui Prata, o seu organizador e coordenador, “…foi o de abertura a um espaço plural de encontro e reflexão em torno da imagem fotográfica, baseado na ideia de se quebrar o silêncio, caminharmos juntos, convidando à escuta e à partilha, num momento em que a convivência entre culturas e experiências, se torna imperativa…”.
Depois desta introdução formal, só vos posso dizer, como fico sempre encantado com o uso da tal fórmula mágica baseada na simplicidade, apanágio do MEF, para a concretização de resultados.
Ao colocarem-se câmaras fotográficas e câmaras de vídeo, nas mãos dos executantes, sendo-lhes explicado que a técnica é necessária, mas tudo se passa ao nível do coração e do sentir, os resultados fabulosos são estes e podem resumir-se na sua força e impacto a, “olhem-se, vejam-se e dêem-se a ver”.
Nada podia ser mais simples.
Nada conseguia ser mais adequado.
Alim Fernandes, Arlete Fragoso, Clara Caramelo, Emanuel Cabeças, Fábio Moura Cabeças, Fábio Moura, Fernando Carmo, Irene Carmo, Irene Maia, , Joaquim Cabeças, João Fernandes Domingos, Julieta Botas Vicente, Leonor Vicente, Leonor Cabeças, Manuela Silva, Maria Vicência, Sandro Vicente, Sayara Silva, Sérgio Vicente e Susana Silveira, deram corpo e alma a este projecto magnífico, relativo ao qual, nas palavras de Maria Vicência Fragoso Cabeças, enquanto Presidente da Associação Costumes Colossal, diz que estas “Histórias do Povo Cigano”,
“…são um testemunho da respectiva resiliência e determinação, revelando que, apesar das adversidades, é possível alcançar o sucesso e contribuir positivamente para a sociedade.
É essencial continuar a divulgar estes relatos e a promover a inclusão e a diversidade, de modo a construirmos uma sociedade mais justa e igualitária para todos…”.
Todos aqueles que tiveram uma presença activa nestas “Histórias do Povo Cigano”, assim como nós, enquanto espectadores dos resultados, se já o eramos, ficámos ainda mais responsáveis pela divulgação desta cultura normalmente designada como a das Comunidades Roma, com origens diversas, mas todas a fazerem parte do grande conjunto histórico dos povos que se espalharam pela Europa desde os finais da Idade Média e com origens nos territórios da Índia distante.
Não deixando de serem seis notas dispersas, que o são, mas porque julgo que podem contribuir de algum modo para um entendimento e contextualização mais alargada deste projecto, conto-vos como nota um, sobre o fascínio e deslumbramento que senti, ao ter estado presente, no ano de 2016, em Saintes-Maries-de-la-Mer, nas Peregrinações Ciganas que aí decorrem desde que os ciganos chegaram à Europa, e para tal, transcrevo parte do artigo do jornal Público, escrito por Sandra Silva Costa, em Maio de 2024 e inserido no suplemento FUGAS, com imagens e apoio de Sousa Ribeiro que por lá esteve em serviço nesse ano.
“…,Todos os anos, a 24 de Maio, a comunidade cigana regressa a Saintes-Maries-de-la-Mer,
uma vila com cerca de 2500 habitantes no Sul de França,
para prestar homenagem à sua padroeira,
uma virgem negra que é carregada em ombros desde a igreja até à praia.
A face da pacata Saintes-Maries, na Camargue francesa, transforma-se radicalmente,
podendo facilmente acolher 25 a 30 mil pessoas que chegam de todo o país e de muitas partes do mundo, para dar mostras da sua fé.
São as grandes peregrinações ao mar, em Saintes-Maries-de-la-Mer…”
“…Como quase sempre acontece com tantas outras tradições,
também esta virgem negra está envolta numa teia de lendas.
Uma delas conduz-nos até ao ano 44 depois de Cristo,
quando uma barca proveniente da Palestina terá encontrado abrigo na costa francesa
com um conjunto de pessoas muito especiais a bordo.
Entre elas, Maria Salomé, identificada como mãe de São Tiago e São João, discípulos de Jesus, Maria Jacobé, prima da Virgem Maria, Maria Madalena, Lázaro e a sua irmã Marta, Maximino e Sidónio, o cego de Jericó…com o tempo, Sara Kali, a negra, eventualmente uma egípcia que servia em casa de uma das Marias e que foi autorizada a juntar-se ao grupo,
acaba por quase eclipsar Maria Salomé e Maria Jacobé.
Hoje é venerada pelos ciganos de toda a Europa…”
Ainda relativo a este mesmo assunto, relembro nesta nota dois, a célebre pintura feita por Vincent Willem van Gogh (1853-1890), cerca de dois anos antes da sua morte, o qual, com uma energia invulgar, marcou na tela o colorido de um acampamento cigano e respectivas carroças, perto de Saintes-Maries-de-la-Mer, a vila piscatória na região da Camargue, onde desde há mais de cinco séculos se faz uma das peregrinações mais fascinantes dos ciganos provindos de todo o mundo, em honra da Santa Sara Kali, padroeira do povo cigano, celebrada em Maio, a 24 e 25 deste mês, com missas, procissões à praia, música, danças e orações, atraindo ciganos de todo o mundo para rituais de fé e celebração cultural, com ofertas e bênçãos à estátua da santa venerada.
Na nota três, relembra-se que no séc. XIX, o fotógrafo Emile Bechard (1844/1905), fotografou nos anos finais deste século, muitas famílias ciganas, que estavam estabelecidas no Egipto.
À época e nestes finais do século XIX e nesta etnia, devido às suas competências profissionais, nas artes da música, funilaria, joalharia e outros ofícios, muitos dos seus membros ficaram ricos e muito bem destacados na sociedade egípcia.
Nas notas quatro e cinco, destacam-se dois trabalhos muito mais contemporâneos.
Um do fotógrafo francês Pierre Gonnord (1963-2024), que retratou ciganos nómadas do Alentejo e respetivos animais e levou as suas belíssimas fotografias a uma exposição em Nova Iorque.
Para este trabalho, Gonnard residente em Espanha, veio a Portugal, inserido numa residência artística, no âmbito da Trienal do Alentejo, com quem colaborou em vários projetos, tendo explorado a fronteira raiana junto a Portalegre e aí se encontrou com ciganos nómadas do Alentejo, as personagens que registou para sempre no seu Au-Delà du Tage e que em Nova Iorque, na galeria Hasted Kraeutler, foi intitulado The Dream Goes Over Time e aí foi apresentado em 2015.
O outro, de Pauliana Valente Pimentel (n. 1975), fotógrafa e artista visual, que desenvolveu o projecto fotográfico FARO-OESTE, sobre o qual ela própria escreveu e disse, ter iniciado em 2019, começando por retratar algumas famílias da comunidade cigana algarvia, sobretudo na zona de Castro Marim e Vila Real de Santo António:
“…A minha intenção com este projecto foi a de retratar estas comunidades, alargando o território para as zonas de Faro, Loulé e Boliqueime, nomeadamente os acampamentos Cerro do Bruxo, Horta da Areia, Alto do Relógio e Monte João Preto.
Este trabalho pretende mostrar o dia a dia destas famílias, dando ênfase às suas tradições, com o intuito de combater preconceitos e estereótipos racistas e xenófobos de que são constantemente alvo…”
Na exposição que aconteceu com este FARO-OESTE, na Galeria Quadrum, em Lisboa, em 2023, no complexo dos Coruchéus, sinto ser pertinente convocar o texto da folha de sala assinado por Pedro Pousada:
NO REINO DOS SEM TERRA
“…na captação do aparente, o ato fotográfico encontra-se frente a frente com o ato poético. São concomitantes, mas não necessariamente iguais. Fazer soar na imaginação o sino da realidade e fazer reverberar na realidade os ritmos dissonantes da imaginação não é a mesma coisa, mas pode tornar-se a mesma circunstância. O corolário do “saber fazer” inventa a estética do ato, mas não dispõe dos recursos todos: a energia estética do nomeado, do apontado, do “alvejado” – aquela criança, aquela mulher, aquele idoso, aquele cão – é outra força em jogo. O que fica do sujeito-objeto na fotografia é muita coisa: o seu lado espectral, inacabado, dissolvido na fluidez dos dias; o que fica é o silêncio opaco do irrepresentável. Porque em cada representação há essa perda; há a consciência de que o mundo vivido possui regiões em que a imagem é apenas a confissão de uma incompletude.
O realismo poético-documental, o plein-air da série fotográfica “Faro-Oeste” da artista Pauliana Pimentel é disso exemplo. A captação não é só fruto da intuição especializada e da mecânica do dispositivo, mas é o espaço para a “conspiração” do olhar ponderado, contemplativo que ainda consegue ser reflexivo e, por isso, vai, a sangue-frio e quente, hierarquizar, excluir, segregar, acentuar, escolher. E, assim, colocar ao alcance de um espectador multitudinário e indeterminado, um mundo reconhecível e dissonante, fazendo-o, porém, sem qualquer essencialismo e sem conseguir superar a distância e a opacidade
que tornarão a fotógrafa e o espectador sempre estranhos a esse mundo.
A invasão fotográfica tem um caráter revelador. Sentimo-nos diferentes, por vezes irreconhecíveis, quando nos vemos como imagens. Surpreendemo-nos (ou desiludimo-nos, agora incessantemente com a pulsão “selfie”) porque vemos o nosso corpo, e residualmente a nossa mente, ali, fora de nós, descolados para sempre daquilo que conhecemos de nós próprios quando olhamos para nós sem imagens e sem reflexos. Imagino que estas pessoas pouco habituadas a serem imagens
– mas muito habituadas a serem indesejáveis –
tenham tido reações curiosas aos resultados da poética quase analítica, quase intuitiva, mas decididamente meiga, da Pauliana.
Nestas fotos pressentimos aquela empatia simultaneamente perscrutante e discreta que podemos remontar a Un enterrement à Ornans (1849-1850), de Gustave Courbet, e que nos revela como a (sobre)vida é bela e difícil e como aqueles que estão dentro dela lutam quotidianamente para tornar as suas vidas menos assustadoras, menos grotescas e absurdas.
É isso que aqui vemos, no colorismo melancólico sem drama e sem juízo moral das fotografias da Pauliana. A fotografia (e o seu mundo) transformando a banalidade quotidiana de uma comunidade cigana num testemunho biopolítico contraditório.
A contradição inescapável e fundacional deste testemunho, do testemunho da Pauliana, é que ele questiona o significado da exceção (onde cabe ela, onde sobrevive ela neste mundo padronizado e normativo?). Questiona-o no vale de lágrimas e de sorrisos de uma das exterioridades mais liminares e polarizadas da vida moderna: uma comunidade cigana perdida nas bordas do Algarve turístico, entalada entre o desalento rural e o paroxismo da urbanização sem urbanidade.
Aquela é uma porção da vida moderna que, através de signos, de símbolos, de presenças sem pose, de criatividade sem hierarquias, nos diz que quer sair para fora do mundo que a oprime, que a exclui, mas ainda não sabe como, e talvez nunca venha a saber. Sim, quer sair desse mundo que não descansa em reduzir-nos a produtores-consumidores atomizados, isolados, inofensivos.
Mas como é que uma comunidade cigana pobre, vulnerável, impotente e despolitizada pode querer sair do mundo que a rejeitou?
Onde é que está, naquele ecossistema de escassez, naqueles olhares e corpos cheios de delicadeza e incerteza, a prova desse querer que já é, em si, uma potência política?
Tal como os palestinianos eternizados nos seus campos de refugiados, estes seres humanos, estes portugueses recusados, constroem a sua soberania estética, “trabalham”, com muito pouco, “sobre si mesmos”.
Olhamos para aquelas salas provisórias em cabanas improvisadas com plásticos, tapumes, madeiras várias, aquele afeto e cuidado estético pelas poucas coisas que se possuem e percebemos que tudo ali é heroico porque é sobrevivente, porque, ali, possuir um objeto, um cobertor ou uma cadeira e guardá-lo, transportá-lo e voltar a retirá-lo das malas, dos sacos, das carroças, montar a casa ou limpá-la é já um ato político antes de ser um ato cultural. É um ato político segurar uma vassoura num lugar onde os elementos são mais fortes e a entropia acontece depressa demais. E, de repente, aquelas subjetividades não são apenas referentes de um modo frágil de viver, mas a vontade, o livre-arbítrio que sobrevive num gesto de utilidade doméstica e que luta contra a reificação, contra a sujidade de um mundo sombrio sem horizontes; que luta com roupa estendida ao sol ou arrumada e dobrada, com panelas lavadas, areadas e penduradas em tabiques precários, com cadeiras e bancos e sofás de diferentes nações e origens reunidos em círculo, junto ao fogo a unir as pessoas na fala, a unir –como nós, entrançados numa corda – as diferentes subjetividades no acordo e na discórdia.
Se este mundo onde estamos parece cada vez mais aproximar-se do fim e, ao mesmo tempo, parece que nunca mais acaba, talvez estas vidas nos possam ensinar o equilibrismo de existir de outra forma mais livre, mais despreocupada (ou é tudo ilusão? Fantasia da minha cabeça? Será que o medo do futuro se esconde naqueles olhares?). Sim, podem ensinar-nos, mas é provável que não aprendamos porque é assustador e desconfortável e agressivo um mundo sem nada. É essa também a contradição: ali está a humanidade que não deixam ser livre porque os portões da cidade estão fechados e, deste lado, onde estamos, está a humanidade que não consegue ser livre porque os portões da cidade estão sempre abertos, mas com hipoteca e crédito malparado. Entre elas não haverá reconciliação porque uma quer deixar de ser a exceção e a outra quer deixar de ser a norma.
As fotografias da Pauliana também nos dizem que o mundo é demasiado perigoso, demasiado permeável à intolerância e ao preconceito para nos darmos ao luxo de ignorar a alteridade. É preciso perceber que, para sair deste círculo vicioso da pobreza sistémica, da crise da crise da crise, do existir apenas para trabalhar, também podemos pegar nestas formas de existência para reconstruirmos a singularidade coletiva para além de e sem a mediocridade da nossa condição de mercadoria.
Ela escreve com luz e caldo fotoquímico sobre a matéria aparente, uma nova exterioridade que devolve ao nomadismo pobre destes ciganos a irrealidade e a intimidade que a ordem burguesa lhes confisca todos os dias, e é nesse intervalo que nos apercebemos daquilo que não conseguimos ser…”
Nesta nota seis e porque os tempos actuais requerem que não esqueçamos nem ignoremos, destaco a importância simbólica do Memorial localizado no parque Tiergarten, em Berlim, próximo do Reichstag, o qual é dedicado aos Roma e Sinti, mortos durante o Holocausto.
Foram cerca de quinhentos mil os que foram dizimados.
Este monumento, concebido pelo escultor israelita Dani Karavan (1930/2021), pretende prestar homenagem às vítimas ciganas com um lago circular, um pedestal e uma flor fresca diariamente.
A Senhora Angela Merkl, enquanto Chanceler da Alemanha, esteve presente na inauguração que aconteceu a 24 de Outubro de 2012 e afirmou que,
“…é muito importante que tenhamos uma cultura de lembrança (…)
e cada geração tem que confrontar a sua própria história novamente
e para isso temos que ter locais adequados que as pessoas possam visitar,
quando as testemunhas da época já não estão mais entre nós….”
Depois destas breves notas de rodapé sobre outros projectos em que os ciganos são a razão profunda da sua abordagem, também senti a necessidade de contextualizar historicamente o que as fotografias do Projecto “Histórias do Povo Cigano”, nos desejam mostrar, não para com isso pretender explicar nada a ninguém, mas apenas para lembrar o porquê de estas histórias importarem muito, razão porque aqui partilho nos parágrafos que se seguem, o que investiguei e que designo por:
Origens, Evolução Histórica e Configuração Contemporânea das Comunidades Ciganas em Portugal, numa perspetiva quase académica.
1. Introdução
As comunidades ciganas constituem uma das minorias étnicas mais antigas e persistentes da Europa.
Em Portugal, a sua presença remonta ao século XV, inserindo-se num movimento migratório mais amplo dos povos Roma através do continente.
A investigação histórica, linguística e antropológica tem permitido compreender melhor as origens, as rotas de migração e a diversidade interna destes grupos. Neste texto sistematizo as principais linhas de conhecimento académico sobre a origem e a evolução das comunidades ciganas em Portugal, integrando contributos de autores europeus e portugueses.
2. Origens dos povos Roma: contributos linguísticos e históricos
É consensual situar a origem dos povos Roma na região do noroeste da Índia, nas regiões do Rajastão e Punjab.
Estudos linguísticos de referência (Matras 2002; Boretzky & Igla 1994) demonstram que a língua romani deriva de línguas indo-arianas, apresentando paralelos com o sânscrito e com línguas indo-arianas ocidentais.
Evidências genéticas (Mendizabal et al. 2012) reforçam esta origem, sugerindo uma migração inicial entre os séculos X e XII.
A partir da Índia, os grupos ancestrais deslocaram-se através da Pérsia, Arménia e Império Bizantino, estabelecendo-se nos Balcãs entre os séculos XII e XIV.
É neste período que surgem os registos europeus iniciais sobre os “egipcianos”, denominação que originaria os termos gitano, gitan, gypsy ou cigano, pese embora a origem egípcia seja um equívoco histórico.
3. Chegada à Península Ibérica e presença em Portugal
A presença de comunidades Roma na Península Ibérica está documentada desde cerca de 1425, sobretudo em Aragão e Castela (Gómez Alfaro 1993).
A chegada a Portugal ocorreu entre o final do século XV e meados do XVI, através de pequenos grupos itinerantes que atravessaram a fronteira espanhola (Liégeois, 1994).
Os grupos que se fixaram em Portugal pertenciam maioritariamente ao ramo Caló ou Calon, também designado como Kalé no contexto ibérico.
Desenvolveram uma variedade linguística própria, o caló ibérico, constituída por léxico romani incorporado em estruturas espanholas e portuguesas.
Apesar de hoje em forte regressão, deixaram marcas no português corrente, fenómeno estudado por M. Lourenço (2010).
4. Políticas do Estado Português: controlo, repressão e assimilação
A relação do Estado português com as comunidades ciganas foi, historicamente, muito marcada por políticas repressivas e normativas.
Entre os séculos XVI e XVIII, sucessivos diplomas legais visaram restringir a mobilidade, impor vestuário não-identitário, proibir atividades económicas tradicionais e ordenar expulsões do território.
Momentos particularmente severos ocorreram, tais como a intensificação de perseguições e prisões, no reinado de D. João V e tentativas de “reeducação” e separação de crianças das suas famílias (Carvalho 2011), no designado período pombalino.
Nos séculos XIX e XX, embora cessassem as deportações, persistiram formas de marginalização, especialmente através da legislação sobre mendicidade, vadiagem e comércio ambulante.
Só a partir do final do século XX se iniciaram políticas estruturadas de inclusão social.
5. Diversidade interna: Calon, Roma de Leste e novos grupos
Apesar da imagem homogénea frequentemente projetada na esfera pública, as comunidades ciganas em Portugal são internamente diversas, podendo destacar-se as seguintes:
5.1. Calon/Kalé
Constituem o núcleo tradicional das comunidades ciganas portuguesas.
Com origem ibérica e longa presença histórica no país, estão distribuídos sobretudo pelo Alentejo, Ribatejo, Algarve e áreas urbanas periféricas.
A sua organização social baseia-se em redes familiares extensas, normas de honra e práticas rituais específicas (Nunes 1998; Mendes 2007).
5.2. Roma da Europa de Leste
Estes chegaram maioritariamente após 1990, sendo originários da Roménia, Bulgária, Hungria, Eslováquia e Moldávia. Falam variantes de romani, tal como o romani vlax e mantêm estruturas familiares distintas das dos Calon.
A sua visibilidade aumentou em centros urbanos devido às migrações intraeuropeias (Cruz 2015).
5.3. Grupos minoritários dos Balcãs e Médio Oriente
Presentes em escala muito reduzida, com culturas e práticas próximas das comunidades Roma do sudeste europeu.
6. Traços culturais e modos de vida
A literatura antropológica identifica vários traços valorizados pelas comunidades ciganas portuguesas, tais como a centralidade da família extensa e solidariedade intra-grupal, códigos normativos próprios baseados no respeito e na honra, mobilidade tradicional, bastante reduzida na actualidade, comércio itinerante e atividades sazonais (Rodrigues 2013).
Há contudo, que evitar generalizações, pois as comunidades são heterogéneas e apresentam dinâmicas distintas conforme o território e o respectivo grau de integração social.
7. Situação contemporânea: desafios e políticas públicas
Nas últimas décadas, estudos sociológicos e relatórios oficiais (ACM, FRA, Eurofound) têm sublinhado desigualdades persistentes em vários domínios, tais como na educação, com abandono escolar precoce elevado, sobretudo entre as raparigas. Na habitação, com condições precárias e segregação espacial em zonas urbanas. No emprego, com uma forte presença no comércio informal e bastantes dificuldades de integração no mercado formal e ainda uma forte discriminação, com persistência de estereótipos e atitudes anti-ciganas na sociedade portuguesa.
Em simultâneo têm emergido mediadores interculturais, associações ciganas e lideranças jovens, que reivindicam participação ativa e políticas de inclusão culturalmente informadas (Mendes, Magano & Candeias 2014).
8. Conclusão
As comunidades ciganas em Portugal representam uma realidade histórica com mais de cinco séculos, marcada por diversidade interna, resiliência cultural e trajetórias sociais, por vezes muito complexas.
A compreensão da sua origem, evolução e situação atual exige uma abordagem interdisciplinar que articule contributos da história, linguística, antropologia e sociologia.
A construção de políticas inclusivas depende do reconhecimento desta complexidade, bem como da superação de estereótipos que ainda persistem no imaginário social português.
Após estes oito pontos termino, alegando que este projecto, “Histórias do Povo Cigano”, nos diz e mostra que com poucos meios, mas com muita vontade, se conseguiu que este grupo de trabalho se olhasse, se visse e se desse a ver, com resultados dignos dos melhores.
Para mim e penso que para todos nós, motivos mais do que suficientes para não baixarmos os braços na sua divulgação e consequente reflexão, pois é determinante reforçar o respeito pela diversidade, pelo direito à identidade e pela valorização do sentido de pertença.
José Soudo – 11 de Janeiro de 2026
Algumas referências bibliográficas e de consulta:
Boretzky, N., & Igla, B. (1994). Kommentiertes Romani-Wörterbuch. Wiesbaden: Harrassowitz.
Carvalho, C. (2011). Os Ciganos em Portugal: Uma Perspetiva Histórica. Lisboa: Colibri.
Cruz, R. (2015). “Roma Migrantes na Europa do Sul”. Sociologia, Problemas e Práticas, 79.
Gómez Alfaro, A. (1993). Los Gitanos en España: El Proceso Histórico. Madrid: Alianza.
Liégeois, J.-P. (1994). Roma, Gypsies, Travellers. Strasbourg: Council of Europe.
Lourenço, M. (2010). “Contributos do Caló para o Português Europeu”. Revista de Linguística, 16(2).
Matras, Y. (2002). Romani: A Linguistic Introduction. Cambridge: Cambridge University Press.
Mendes, M. M. (2007). Entre a Rua e a Casa: Uma Etnografia sobre Ciganos Portugueses. Lisboa: ICS.
Mendes, M. M., Magano, O., & Candeias, P. (2014). Ciganos Portugueses: Dimensões e Recomendações de Políticas Públicas. Lisboa: ACIDI.
Mendizabal, I. et al. (2012). “Reconstructing the Population History of European Roma”. Current Biology, 22(24).
Nunes, J. (1998). Os Ciganos: Antropologia de um Grupo no Baixo Alentejo. Lisboa: Dom Quixote.
Rodrigues, A. (2013). Rituais e Identidade nas Comunidades Ciganas Portuguesas. Porto: Afrontamento.
Obs: Este texto não cumpre o actual AO e não foi feito por mecanismos de IA
