Este Lugar em 3 Postais

Miradouros

Jardim do Torel – Praça da Alegria – Miradouro de São Pedro de Alcântara

Tema 1 – Horizontes Partilhados . Do miradouro, a cidade deixa de ser apenas paisagem, torna-se encontro, um horizonte partilhado por todos, entre quem contempla pela primeira vez e quem repete o gesto há décadas. Captamos o instante em que os olhares se cruzam sobre Lisboa inteira e, mais do que registar uma vista, procuramos traduzir esse gesto coletivo de ver, onde cada fotografia é também um diálogo silencioso com os outros que olham.

Tema 2 – Narrativas Urbanas . Há lugares que são espaços abertos onde a cidade se revela em permanência, entre ruas que se cruzam, fachadas que se expõem e o movimento incessante das pessoas, onde emergem fragmentos de histórias que se entrelaçam em camadas. Fotografamos a vida que rasga o tempo, as conversas que se prolongam nas esplanadas, os telhados que guardam segredos antigos, e cada enquadramento transforma-se em narrativa, onde Lisboa se reinventa, feita de gestos quotidianos e de memórias ocultas, de instantes visíveis e invisíveis.

Tema 3 – Memória do Olhar . Olhar de um ponto alto da cidade é também revisitar memórias, pois cada vista carrega os ecos de quem já aqui esteve: viajantes, músicos, poetas, fotógrafos e habitantes anónimos. Na fotografia, não captamos apenas a paisagem atual, mas também a sua dimensão de tempo, uma memória contínua que se prolonga entre passado e futuro. Procuramos imagens que guardem esse gesto repetido de contemplar, o mesmo horizonte sempre renovado pelo olhar de quem o descobre.


Andreia Mayer

Em conjunto, estas 3 imagens formam uma reflexão sobre Lisboa enquanto enquadramento visual. Do horizonte coletivo ao detalhe arquitetónico e humano, até às práticas quotidianas do presente, o que se desenha é uma cartografia do olhar. Cada fotografia acrescenta uma dimensão à experiência urbana: o partilhar de um horizonte, a inscrição de narrativas cruzadas, e a construção contínua de memórias. Mais do que documentos, são exercícios de atenção à forma como a cidade se revela e se reinventa através de quem a vê e a vive.


Luís Rocha

Horizontes Partilhados

Neste instante suspenso, o passeio por Lisboa deixa de ser apenas uma imagem fugaz e transforma-se num encontro. O sorriso radiante da rapariga abre caminho para um território de memórias e afetos; diante dela, dois olhares atentos, voltados de costas para nós, esperam ser tocados pelas imagens que pulsam no ecrã do telemóvel. Este gesto, tão simples quanto profundo, converte o Jardim do Torel num espaço coletivo de diálogo. O que se partilha não é apenas uma referência distante, mas um convite a reconhecer o que nos une: tradições, rituais, história. É bonito o momento em que estes olhares distintos se cruzam e, juntos, desenham um horizonte partilhado.

Narrativas Urbanas

Na vivência apressada da cidade, são os detalhes que nos revelam histórias. Dois cães sentados lado a lado, presos à trela de quem os segura; em que apenas vislumbramos as pernas da dona, numa espécie de presença sugerida mais do que mostrada. O olhar picado da fotografia aproxima-nos dessa cumplicidade silenciosa: o vínculo partilhado entre passos humanos e passos animais, como se fosse o reflexo da conversa mantida no instante fotográfico. Lisboa revela-se também assim, quando a fotografia se converte em narrativa. A rua deixa de ser apenas passagem e transforma-se em palco de encontros, onde o simples gesto de passear os cães ganha a densidade de uma história que pertence à cidade inteira.

Memória do Olhar

Na passagem apressada da passadeira, a cidade revela-se em camadas de tempo. As figuras avançam na nossa direção, arrastadas pela lentidão do obturador e pela velocidade dos seus próprios passos. As identidades ficam resguardadas pelos rostos omitidos, apenas são fragmentos refletidos em rastos de movimento que se sobrepõem como memórias sucessivas. Ao centro da imagem, uma senhora de camisa branca segura um saco de papel na mão esquerda. É nela que o olhar repousa, como guardiã silenciosa de uma narrativa maior. Neste gesto comum de atravessar a rua, perpetua-se a memória do olhar: repetida por milhares de transeuntes, sempre igual e sempre diferente. Fotografar aqui não é apenas deter a paisagem presente, é reter o contínuo do tempo. Cada passo carrega os ecos dos que já caminharam, do que sou agora ao atravessá-la e do que ficou para trás. O mesmo horizonte urbano, sempre renovado pelo olhar, agora que o descubro de novo.


Tânia Araújo

Horizontes Partilhados

Na luz dourada de final de tarde, um casal caminha de mãos dadas. Os óculos escuros escondem-lhes os olhos, mas não o gesto cúmplice que os une. Na fotografia, a nitidez não está neles, mas na rua que se apresenta ao fundo, mas não é ali que o olhar repousa, como se recusássemos que a imagem da cidade fosse a verdadeira protagonista. O desfoco transforma estas duas figuras em pontos de passagem, sugerindo que pertencem tanto ao instante vivido como à memória que se prolonga. O horizonte que partilham não é apenas íntimo, é também coletivo, inscrito na luz que os envolve.

Narrativas Urbanas

Este enquadramento em contra-picado encaixa-se plenamente no espírito de Narrativas Urbanas: a cidade surge desdobrada, o prédio ergue-se em verticalidade sólida, mas é no reflexo que emergem as histórias humanas onde são estes fragmentos fugazes que intensificam a leitura da imagem. O reflexo da fotógrafa, dissimulado, lembra-nos que quem observa também pode ser parte desta narrativa. A janela aberta acrescenta novas possibilidades: íntimas, privadas, invisíveis a quem passa, mas insinuadas pela fotografia. Aqui, a imagem torna-se uma história inacabada, feita de gestos quotidianos e de memórias ocultas que a cidade devolve em fragmentos. E, no meio de tudo, surge o detalhe quase insignificante do sinal de trânsito de sentido proibido , passa quase despercebido, mas a lembrar-nos que cada olhar descobre sempre algo novo na cidade.

Memória do Olhar

Na superfície gasta da parede amarela, duas sombras projectam-se, pronunciadas pela luz quente do final da tarde. Não vemos os corpos, apenas os seus contornos efémeros, como penumbras, ecos de presenças que atravessam o tempo. A imagem reflete um gesto quotidiano e lembra-nos que cada lugar da cidade guarda as marcas de quem ali esteve, são estas as sombras dos habitantes anónimos. O mesmo gesto renova-se agora através do olhar que descobre não as figuras, mas os seus rastros de sombra, reforçando a dimensão temporal da cidade. É um exercício de memória que captura a passagem, prolonga o instante e devolve-nos a sensação de que Lisboa se revela também nos vestígios do que já foi.


Vitos Soares

Horizontes Partilhados

Nesta Lisboa, a Igreja da Sé ergue-se no horizonte, símbolo visível e constante de uma cidade que se oferece ao olhar de quem a descobre. O casario espalha-se como um encruzado de horizontes partilhados. Daqui, desde o miradouro, turistas e habitantes contemplam, de longe, a beleza tranquila da cidade. Este postal ilustrado não regista apenas a paisagem; captura o instante em que a cidade se mostra plena, serena e aberta, lembrando-nos que cada olhar se cruza com os de outros que, antes de nós, também a percorreram e sentiram.

Narrativas Urbanas

A pintura mural revela uma figura humana à janela, segurando um cartaz com a frase “dá-lhes luta”, acompanhada de um gato que observa silenciosamente o movimento da cidade. Mais do que um simples elemento decorativo, esta intervenção traduz a cidade como palco de expressão social e cultural, onde ideias, críticas e memória coletiva se manifestam através da arte urbana. Lisboa transforma-se em galeria a céu aberto: espaços degradados ganham nova vida, a identidade urbana é preservada e as intervenções dialogam com as características arquitetónicas de cada local. A Câmara Municipal, através da Galeria de Arte Urbana (GAU), apoia esta prática, promovendo locais autorizados e reconhecendo o trabalho de artistas pioneiros e contemporâneos, desde nomes locais a figuras internacionalmente reconhecidas como Vhils. Locais emblemáticos tornam-se ícones da cidade, onde cada mural é simultaneamente intervenção estética, narrativa social e memória urbana. O gesto da figura à janela, simples e poderoso, lembra-nos que a arte urbana é também uma forma de cidadania, cada cartaz, cada cor e cada sombra transforma o espaço, preservando e reinventando a identidade de Lisboa.

Memória do Olhar

Esta imagem encaixa-se bem no tema Memória do Olhar, porque regista contemplação, enquadramento cuidadoso e relações subtis entre arquitetura e natureza, sugere-nos a experiência de observar, de enquadrar e de reinterpretar a paisagem urbana. As colunas funcionam como uma moldura que guia o nosso olhar e a palmeira acrescenta um ritmo vertical que dialoga com o palácio ao fundo, uma linha que nos rompe a leitura da imagem.


Miriam Ascenso

Horizontes Partilhados

Três mulheres sentadas num banco. Uma delas mostra a imagem fotográfica que lhes fez; outra observa atentamente o que o ecrã reflete, enquanto a terceira dirige o olhar observando quem as fotografa. As cores das suas roupas – azul, vermelho e amarelo – compõem cromaticamente a cena, mas são os rostos que nos captam a atenção, revelando emoções e gestos de partilha na simplicidade do momento. O enquadramento horizontal da fotografia permite uma leitura em diagonal, da esquerda para a direita, conduzindo o olhar até ao rosto da senhora mais à direita, encerrando o percurso visual num instante de sorriso. A imagem transforma-se num convite à contemplação, onde cada olhar se cruza e participa da narrativa silenciosa do encontro.

Narrativas Urbanas

Um banco exibe resquícios de frascos de tinta, vestígios dos gestos de um pintor de rua; um saco de hipermercado guarda os materiais de pintura, enquanto uma caixa de plástico preserva camadas de outros momentos artísticos. Nas proximidades, alguém passa, carregando outro saco, colorido e decorado com motivos alusivos ao Snoopy, acrescentando uma nota lúdica à cena. A calçada portuguesa serve de cenário, conferindo ritmo e textura à composição, onde o ocasional se transforma em narrativa. Cada objeto, cada movimento e cada cor contribuem para contar a história do quotidiano urbano, tornando visível a vida e os gestos que fazem da cidade um espaço em constante reinvenção.

Memória do Olhar

Celeste Caeiro, conhecida como “Celeste dos Cravos”, é uma figura emblemática da Revolução de 25 de Abril de 1974, símbolo de resistência, paz e liberdade em Portugal. Fotografado de um ponto elevado, o mural surge enquadrado verticalmente através da janela de um típico ascensor lisboeta, integrando-se no cenário urbano da cidade, que se transforma sob o olhar atento do observador. O enquadramento reforça a ideia de que o olhar da autora da imagem se constrói sobre camadas de memória: o retrato de Celeste, personificando a memória da Revolução, e a vivência quotidiana de uma cidade que preserva e celebra os seus ícones através dos seus meios de transporte. A fotografia torna-se, assim, um gesto de contemplação histórica, onde presente e passado se encontram, e cada olhar que descobre o mural participa da narrativa de liberdade que Celeste dos Cravos simboliza.


Tânia Carmo

Horizontes Partilhados

Ontem, no jardim, um grupo de mulheres nepalesas a dançar, vitoriosas e felizes, celebrando o festival Haritalika Teej, da tradição hindu. Descalças, envoltas em vermelho, dançam a feminilidade, transformando o espaço numa festa de alegria e pertença. Na imagem, apenas dois sapatos repousam sobre a relva, são testemunhas silenciosas de uma celebração onde o corpo e a cultura se fundem em movimento.

Narrativas Urbanas

Num cenário que se desenrola entre a natureza e a cidade. Vários grupos de pessoas reúnem-se, partilhando o mesmo espaço, algumas, da bancada, assistem ao espetáculo da vida. Uns permanecem na penumbra, outros iluminam-se pelo sol. O olhar vagueia, saltando de figura em figura, em busca das histórias escondidas, das ligações visíveis e invisíveis que se revelam diante de nós. A vida, em movimento, escreve-se no presente, múltipla, fragmentada e comum.

Memória do Olhar

A fotografia é a captação de um instante, um olhar que se transforma em memória. Um registo que guarda o presente para um futuro que não está assim tão distante. Na imagem, uma silhueta ergue-se sobre o fundo iluminado de Lisboa. O Castelo de São Jorge reivindica protagonismo, disputando-o com a figura em primeiro plano. Entre a cidade e o ser humano, o olhar encontra o equilíbrio e guarda o momento.


Carla Almeida

Horizontes Partilhados

Esta Lisboa revela-se em camadas, o casario na encosta iluminado pelo fim de tarde, a Sé que se destaca no horizonte e, em contraste, o primeiro plano mergulhado na sombra. Entre luz e penumbra, o olhar descobre-se partilhado, um horizonte comum, com o Tejo ao fundo, feito de memórias individuais que se encontram na mesma paisagem.

Narrativas Urbanas

A placa do Arco do Evaristo situa-nos no lugar. A sombra da fotógrafa, projetada no enquadramento, introduz a presença de uma personagem, como se a narrativa se escrevesse entre quem observa e quem é observado. O espaço urbano revela-se nos resíduos – sacos de lixo amontoados, sinais de uma cidade que oscila entre a falta de recolha e o excesso de produção. A história constrói-se na sobreposição destas camadas: património, vivência e contradição.

Memória do Olhar

Um casal, em silhueta, dialoga com a cidade como pano de fundo. A luz do final de tarde envolve o casario, refletindo-se em tons quentes que se fundem no céu.
O instante transforma-se em cenário acolhedor e intimista, preservamos esta memória guardada no olhar, onde a cidade e a vida se encontram em harmonia.


Vanessa Dias 

Horizontes Partilhados

Um casal encostado à grade do miradouro observa a paisagem. O gesto do homem, apontando ao longe, sugere caminhos, possibilidades, direções. No chão, as sombras dos corpos prolongam a sua presença. O céu, queimado pela intensidade da luz, surge em branco como se fosse um horizonte inacabado, aberto à imaginação de quem olha. Entre a realidade visível e o espaço observado, constrói-se a partilha.

Narrativas Urbanas

Na calçada, um carro Triumph permanece imóvel, descapotável, vazio, como se aguardasse a continuidade da sua própria história. À esquerda, uma esplanada silenciosa reforça a suspensão do tempo. A imagem, mais do que registo de rua, é também memória de uma época. A Triumph Motor Company, nascida em Inglaterra no final do século XIX, começou com a produção de bicicletas antes de se aventurar no fabrico automóvel em 1923. Tornou-se símbolo de estilo e modernidade britânica, integrando mais tarde a British Leyland, até desaparecer das estradas em 1984. Hoje, a marca pertence à BMW, guardando um legado de inovação e identidade. Nesta fotografia, o carro não é apenas um veículo, é o testemunho de um tempo, de um design e de um modo de viver que constrói a memória urbana.

Memória do Olhar

O homem, sentado numa mota, apoia o corpo na grade. A mão esquerda pousa no queixo, e a direita no corrimão, o boné dirige-nos para o seu olhar. Há algo de suspenso neste instante, ficamos a pensar nesse pensamento que a imagem não revela, uma introspecção guardada no silêncio. A fotografia guarda o peso deste momento interior, onde o olhar perdido se torna memória.


Ana Rita Pessoa 

Horizontes Partilhados

Nem sempre os horizontes são físicos. Na imagem, um grupo de jovens espalha-se pela relva do jardim , estão sentados ou deitados, partilham a escuta, a palavra e o simples acto de estar em conjunto. Alguns permanecem mais recolhidos em si próprios, mas mesmo aí existe uma ligação ao todo. A partilha, aqui, não é apenas visível, é sentida. Os horizontes, esses, não se mostram de imediato, adivinham-se, nas conversas, nos gestos e no tempo que se prolonga no espaço vivido em comum.

Narrativas Urbanas

Pessoas, na sombra, ocupam a esplanada, imersas na sua presença e no usufruto do espaço. Ao fundo, um edifício devoluto exibe grafitis de intervenção política, testemunhos visuais da voz e da contestação na cidade. A fotografia mostra o contraste entre a vida na esplanada e as mensagens que acentuam o abandono, convidando o olhar a percorrer a história, resistência e memória urbana.

Memória do Olhar

A fotografia é dominada pela sombra, exceto por uma zona iluminada que revela uma jovem de óculos escuros e de gargalhada aberta. A energia deste instante ficará guardada, numa memória que permanece, silenciosa, no olhar fotográfico de quem observa a imagem.


Tiago Guerreiro

Horizontes Partilhados

No reflexo de uma montra, um autorretrato revela a partilha – ele, fotógrafo; ela, em pose, dirigindo o olhar para a lente. Atrás, a calçada e os prédios da cidade completam o quadro, fundindo o íntimo do gesto com o espaço urbano. Neste instante refletido, os horizontes deixam de ser apenas geográficos, tornam-se partilhados entre quem observa e quem é observado.

Narrativas Urbanas

Uma fachada de um prédio revela-se em camadas – em primeiro plano, parte de uma copa de uma árvore desfocada, nas varandas, plantas e flores convivem com um ar condicionado. Os números 49 e 51 marcam a individualidade dos prédios, enquanto o conjunto da imagem reflete a vida quotidiana da cidade.

Memória do Olhar

A imagem surge nebulosa, desfocada pela objectiva, revelando ao longe uma esplanada iluminada pelo sol. O silêncio das personagens preenche o olhar de quem observa. A cor laranja do guarda-sol contrasta com a frieza da pedra da fonte em primeiro plano, prendendo a atenção e criando um equilíbrio subtil entre calor e rigidez, luz e matéria.


Paula Magalhães

Horizontes Partilhados

Um casal repousa na luz incidente, alojado em espreguiçadeiras. Os ligeiros sorrisos revelam que o retrato do momento é consentido. Outras pessoas surgem na imagem, mas estão ausentes dela. Ficamos a imaginar os seus pensamentos, quem é este casal num sábado ao final da tarde. A partilha não se dá num horizonte amplo, mas num instante vivido com tranquilidade, onde o tempo e o espaço se tornam íntimos.

Narrativas Urbanas

Um rapaz, estafeta de uma plataforma digital de entregas, sorri simpaticamente para a câmara. Sentado, segura o telemóvel na mão, num instante de pausa.
A luz forte incide pelas suas costas, mantendo-o parcialmente na sombra, reforçando o contraste entre a presença humana e o espaço urbano que o envolve. Neste novo tecido urbano, os estafetas assumem um papel central, conectam pessoas e serviços, atravessam a cidade em movimento constante e tornam visíveis as dinâmicas de consumo e de mobilidade que definem a vida contemporânea. A sua presença é um reflexo das transformações sociais e económicas que moldam actualmente as nossas cidades.

Memória do Olhar

Um casal encostado ao miradouro fala entre si. Ele, de costas para nós, contempla a paisagem; ela, de perfil, observa-o silenciosamente. O instante fotográfico regista a intimidade do diálogo e a conexão entre presença e paisagem, transformando-se numa memória suspensa no olhar de quem observa.


Jerónimo Salvado

Horizontes Partilhados

Na imagem, pensada a preto e branco, vê-se uma mulher a fotografar o horizonte. O registo ganha um tom nostálgico, como se a cidade, esta Lisboa vista ao fundo, fizesse parte de uma memória. O ato de fotografar prolonga o olhar, transformando o horizonte em partilha, entre quem observa, quem regista e quem, depois, interpreta a imagem.

Narrativas Urbanas

Uma mota parada exibe a mochila da Bolt Food, empresa de distribuição de comida. Mais do que um simples detalhe de rua, o objeto assinala a transformação dos hábitos urbanos em que a cidade acelera, a entrega aproxima, e a comida circula no mesmo ritmo da vida contemporânea, com menor tempo de estar. O registo fotográfico fixa essa marca do presente, testemunho do novo tecido económico e social que se entranha no quotidiano das cidades.

Memória do Olhar

Um candeeiro aceso, de luz quente, ilumina a parede revestida de azulejos, marcada por janelas e varandas.
A simplicidade da fotografia ganha intensidade pela presença da luz, que fixa o instante e perpetua a memória desse olhar, numa lembrança feita de detalhes dos que habitam a cidade.


Kady Kounta

Horizontes Partilhados

Duas figuras femininas atravessam um túnel, caminhando em direção à paisagem. Partilham o caminho e, talvez, o destino. O nosso olhar acompanha o movimento dos seus corpos recortados contra a luz, até ao fundo, onde a cidade se desenha como horizonte comum.

Narrativas Urbanas

No retrovisor de um carro, está suspensa a figura frágil de uma bailarina ( ou talvez uma trapezista ) recortada em papel. No vidro, o reflexo da cidade prolonga a cena, como se duas histórias se entrelaçassem num mesmo enquadramento. A luz fria confere estranheza ao instante, convocando-nos a inventar histórias e possibilidades. Entre o real e o imaginado, ergue-se a narrativa urbana que cada olhar transporta.

Memória do Olhar

Nesta fotografia, a imagem produzida não é estática nem fixa. O movimento da câmara arrasta consigo as formas, misturando-as em manchas e cores que se fundem numa paleta vibrante. O reconhecimento efectivo das figuras perde-se, restando apenas vestígios que convocam a memória de quem observa. O resultado é uma imagem figurativa, aberta ao abstrato, uma um olhar para um reflexo da cidade que julgamos conhecer, agora transformada em desafio sensorial.


Isabel Pires

Horizontes Partilhados

Várias pessoas repousam nas cadeiras, orientadas para a paisagem. As de lona vermelha prendem o olhar, guiando-nos pela imagem. Sobre uma pequena mesa, dois copos de cerveja captam a luz que os atravessa, acrescentando calor visual ao instante. O tronco de uma árvore impõe-se no enquadramento, enquanto a cidade permanece ao fundo, distante e difusa, confundindo-se com o branco do céu. Na interação entre a presença humana e o espaço urbano, a fotógrafa encontra um horizonte partilhado, tecido de gestos simples e de contemplação tranquila.

Narrativas Urbanas

Observamos um homem, despido da cintura para cima, com a cabeça praticamente rapada, vestindo apenas calções curtos. Está sentado sobre uma toalha de cores claras, que contrasta com o verde da relva. A posição do corpo transmite um momento de pausa e introspeção, convidando quem observa a refletir sobre o instante e a harmonia entre corpo, espaço e ambiente. Em primeiro plano, uma das máquinas de exercícios físicos lembra a presença da cidade e da rotina urbana, enquanto a natureza se insinua discretamente ao fundo e no canto inferior direito.

Memória do Olhar

Nesta imagem a preto e branco, uns binóculos fixos na cidade convidam-nos a observar. Destinados aos turistas, permitem descobrir detalhes de edifícios históricos, monumentos e paisagens distantes que escapam ao olhar desarmado. Ao lado dos binóculos, um painel de azulejos retrata a paisagem que se observa. Uma figura feminina surge isolada no lado direito, enquanto, ao fundo, o castelo se ergue da colina, espreitando a cidade. A fotógrafa, mais do que captar um instante, confere ao momento a memória do olhar, ao observarmos os binóculos, a figura e o castelo, reconstruímos experiências, recordamos gestos, transformando o instante captado por um aparelho de imagem fugidia numa memória duradoura produzida por uma câmara fotográfica


Ana Cristina Costa

Horizontes Partilhados

Lisboa revela-se ao olhar de quem chega ao miradouro do Jardim do Torel. Continua lá, mesmo que uns permaneçam distraídos ou até lhe voltem as costas. Talvez sintam que o guindaste desfeia a paisagem e, por isso refugiam-se nas sombras das árvores, no chão relvado e macio. Quem olhar com atenção vislumbra um Eden, que já não é só um paraíso, mas ponto de passagem e descanso para quem se cruza com o que a cidade oferece.

Narrativas Urbanas

Parar no Jardim Alfredo Keil, na Praça da Alegria, é como espreitar um cenário de uma peça de teatro ou um take de um filme. E os artistas, lembrados no “passeio da fama”, são as suas testemunhas e espectadores permanentes. O Hotel Alegria, de fachada bonita e amarela, casa na perfeição com o verde das floreiras, da relva, das árvores e do “clássico” que aguarda um passageiro especial. É um cenário que descansa o olhar e que oferece descanso nos bancos de jardim e esplanada. Ficamos com vontade de estar ali, como o cãozito que se passeia livremente.

Memória do Olhar

Quantos já terão passado por aqui e olharam para além da Avenida Liberdade, procurando adivinhar o que se vislumbra do lado de lá? Ou se detiveram no movimento quase continuo de pessoas e veículos, que sobem e descem a Liberdade? Lado a lado com o busto de Alfredo Keil, o banco de jardim permite uma paragem, um descanso, uma conversa. O Alfredo Keil olha para o lado e com isso não repara no jogo de luzes e sombras à sua frente.