Memória do Agora


Numa altura em que a sociedade de Lisboa se transforma e ganha uma nova identidade, pretendemos fazer um registo contemporâneo do agora, um documento de uma comunidade em transformação sustentada na identificação das histórias de vida que compõem o nosso quotidiano.  Este registo, fotográfico, será encaminhado no objetivo de preservar a memória viva da cidade e das histórias da comunidade.

Para concretizar este levantamento fotográfico criámos a Oficina de Fotografia Documental MEMÓRIA DO AGORA que desafiou os formandos a desenvolverem um registo fotográfico documental na Freguesia de Marvila. O levantamento fotográfico documental dará fruto a uma coleção de postais ilustrados, onde figurarão os protagonistas das histórias contadas e a sua a história. Posteriormente estes postais ilustrados serão disponibilizados de forma gratuita em pontos de distribuição da freguesia promovendo a partilha e difusão de uma cultura social e quotidiana. Para além dos postais, as narrativas fotográficas de cada fotógrafo participante serão objecto de edição em livro.

Com apresentação pública a 28 de Novembro *, deixamos agora em galeria uma imagem de cada um dos trabalhos desenvolvidos.


GALERIA


SR. FRANCISCO de Luís Rocha

Conheci o Sr. Francisco em 2011, foi-me apresentado por um amigo, na altura fomos recebidos com um tacho de cachupa cabo-verdiana colocado na mesa à nossa disposição. Éramos 5 ou 6 pessoas nesse almoço, foi uma tarde de partilha e de muitas histórias. Desde então, sempre que possível, proponho aos formandos das ações de formação do MEF a sua horta no Vale de Chelas como opção de terreno documental, em Abril de 2016 foi convidado de honra de uma das alunas. Há umas semanas desci novamente a encosta para o fotografar, a horta não é mais o espaço de convívio, está tomada pelo passar do tempo. Telefonei-lhe, marcámos uma conversa para daqui a uns dias. 

O CANTO DAS ARTES E DAS MANHAS de Alexandre Carvalho


A Doca do Poço do Bispo foi projetada e concebida para apoiar o intenso transito de mercadorias
existente no rio Tejo, em meados do século XX. A Doca, era o ponto de chegada das matérias primas, com destino às fábricas (Fábrica do Sabão, Fábrica de Material de Guerra, Abel Pereira da Fonseca, e outras) e de partida dos barcos carregados com os produtos transformados para consumo das populações das mais diversas regiões do país. A atividade portuária era bastante intensa e havia uma grande necessidade de mão-de-obra. O panorama atual da Doca do Poço do Bispo não deixa adivinhar a importância do seu passado para as gentes de Marvila. Mas “há sempre alguém que resiste” … num canto da Doca, ao cimo da rampa, outrora local de grande azáfama na carga e descarga das embarcações e hoje apenas ocupada pelos barcos ali deixados, um grupo de resistentes tem o seu ponto de encontro diário. Recordam as artes … e as manhas para escapar de quem os queria apanhar.
Testemunhas das mudanças diárias daquele lugar são, ao mesmo tempo, os fiéis depositários das
memórias da Doca do Poço do Bispo.

CFC (Clube de Futebol de Chelas) de Ana França


O primeiro campo de areia da cidade de Lisboa fica no Clube Futebol de Chelas, em Marvila e nasceu em julho de 2017. Local onde uma equipa solta o pé na areia ao toque da bola sempre com o objetivo de superar o ano anterior, de fazer sempre melhor. 
A pandemia trouxe paragens/atrasos nos treinos e campeonato, tendo sido mais concentrados no tempo e exigentes em igual forma a anos anteriores. Foram muitos finais de dia de trabalho árduo na preparação para um campeonato rigoroso que se aproximava. Este ano não houve espetadores nas bancadas, mas a comunidade marcou presença ao contribuir com o seu apoio fora do campo, motivando aqueles que representam as cores do seu clube.
É uma família alargada aquela que encontramos, onde todos contribuem com o seu esforço e empenho, acreditando que a capacidade de cada um fortalece o todo. A luta pela subida à divisão de elite irá continuar. “Chelas! Chelas! Chelas!”


VIDAS SIMPLES de Mafalda Oliveira Monteiro

O retrato de duas mulheres que desempenham um papel socialmente relevante em Marvila e de outras vidas simples.D. Aurora nunca esqueceu o que a mãe lhe ensinou: “o que damos com uma mão, recebemos com duas”. Fundadora do Grupo Inter-geracional Amigos dos Lóios, orgulha-se de promover e incentivar a vida em comunidade através da organização de passeios pelo país a preços simbólicos, almoços, bailaricos e festas na Praça, sobretudo dirigidos a trazer um brilho ao olhar dos mais seniores e dos que vivem mais sós.A D. Augusta acredita que o segredo da vida está em partilhar momentos bons, lembrando que existe sempre um caminho. Através da Associação de Inter-ajuda de Jovens “Eco-estilistas”, D. Augusta e os seus jovens, de idades entre os 12 e os 15 anos, com materiais recicláveis inicialmente recolhidos das ruas e actualmente doados pela Comunidade, transformam lixo em maravilhosos vestidos e acessórios que exibem em desfiles de moda em Portugal e no estrangeiro. Com a ajuda de voluntários, D. Augusta e a sua Associação organizam também variados workshops de música, dança, culinária, xadrez, desporto, todos direccionados à motivação de jovens entre os 12 e os 15 anos e ao seu afastamento do risco.

CONTRASTES de Rita Castro

Conhecer Marvila é perceber que há múltiplas realidades dentro de uma só zona. Trata-se de uma freguesia onde: o novo e o velho se juntam; fábricas cinzentas vivem, lado a lado, com o rio azul; as quintas e os edifícios altos co habitam; a velocidade do dia a dia contrapõe-se ao silêncio dos sábados e domingos; edifícios muito coloridos estão colados a prédios totalmente brancos; a azáfama da Feira do Relógio no domingo rompe com a estrada comprida de alcatrão vazia do dia anterior; o rio Tejo abre a imensidão do fechamento próprio de uma comunidade; a luz e os seus reflexos surgem no escuro ou no menos visível; a arte urbana serpenteia a arquitetura simples e modesta; o comboio passa junto às habitações, agitando o ar que se vive nelas.
Simultaneamente a todos estes contrastes, existe uma harmonia que os liga; como se um fio condutor invisível unisse as diferenças e as tornasse semelhanças, construindo um todo. 

A mostra de trabalhos MEMÓRIA DO AGORA está inserida no Movimento Cultural Global com Impacto Social Fair Saturday


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